Mas o que é um CHAN?
Um chan é um modelo de fórum anônimo onde os usuários devem criar “fios” de postagens a partir de uma imagem; são imageboards. E a característica chave de um chan é sua efemeridade: os fios de discussão que não recebem tanto engajamento desaparecem e são substituídos por novos fios. O que acontece num chan, fica num chan — pelo menos, essa é a ideia.
O primeiro Chan foi criado no dia 30 de maio de 1999 (ALT, 2020, p.208). Em um apartamento da universidade de Conway, em Arkansas, o jovem Hiroyuki Nishimura lançou o site 2channel para discutir sobre animes e mangás. De lá para cá o mundo nunca mais foi o mesmo.

Sendo hospedado nos Estados Unidos, o site ficava livre das leis de censura mais rígidas do Japão. 2channel era um “segundo canal” para os usuários de um fórum popular mas instável chamado “Amezou”. O nome também é uma referência ao canal “morto” (canal 2) usado para conectar videogames antigos antes dos cabos VGA e HDMI — quem teve um NES, SNES ou Nintendo 64 sabe. O site foi, por um tempo, o mais acessado no país.
Origem dos chans
Ao longo dos anos 90 vídeo games, animes e outros produtos culturais japoneses chegaram com força ao ocidente. As sementes da cultura otaku se enraizaram na década seguinte e criaram uma forte demanda por um contato mais direto com as obras em questão do que aquele que era possível através de uma intermediação muitas vezes censuradas das obras dubladas e localizadas para o público americano. Os novos otakus queriam material direto da fonte (eles queriam ver anime legendado). Mas eles não conseguiam visitar o2channel sem um conhecimento mínimo de japonês.
Paralelamente, ainda em 1999, Richard Kianka, conhecido como Lowtax, lança o site humorístico “Something Awful” (Algo Horrivel). Muitos memes e referencias da chamada cultura da internet tem origem no site.
No dia 30 de agosto de 2001, Hiroyuki lança um site backup do 2channel, o Futaba, ou 2chan. Era um backup. Mas ele deixou o código fonte aberto.
Equanto isso o Something Awful cresce, assim como o interesse em animes no início dos anos 2000. Lowtax, dono do Something Awful, não era particularmente fã de animes e não via com bons olhos a enxurrada de hentai que os usuários postavam. Em vez de apagar ou banir o conteúdo no site, ele criou outro forum: O ADTRW. ADTRW é o acrônimo para “ANIME DEATH TENTACLE RAPE WHOREHOUSE” (que eu vou me abster de traduzir). O DNA da cultura edgy (da transgressão pela transgressão) sempre permeou a cultura dos fóruns digitais.
Esta era a forma de Lowtax dizer: “Ei seu bando de estranhão, vocês querem ficar postando hentai? Então tá aqui o espaço de vocês!” (com um nome apropriado).

Lowtax escolheu este nome bizarro para designar a partição otaku do Something Awful pelo seu desdém à mídia em questão, mas ela acaba resumindo o espírito da cultura que se criava; o culto à transgressão onde o grotesco é celebrado para afastar aqueles que não partilham da cultura que circula naquele espaço: a cultura da transgressão produz estranheza para afastar os “normies” de seu espaço.
O ADTRW e o 2Chan (japonês) compartilhavam postagens e ideologias semelhantes. A permissividade com fantasias de abuso e outras formas “não ortodoxas de sexualidade”, mesmo que inicialmente postas no site pelo valor de choque, acabou atraindo usuários que se sentiam à vontade para expressar tais fantasias. Quem diria? Se criavam assim espaços propícios para a socialização a partir de um gozo desregrado (onde “tudo pode”).

Um dos usuários mais ativos do ADTRW era o jovem Christopher Poole, conhecido como moot. No dia 29 de setembro de 2003, moot registra o 4chan.net. a escolha do nome era simples: ele queria fazer um novo 2chan, então tentou registrar 3chan, mas o domínio já estava ocupado. Naturalmente, a próxima opção seria 4chan (ALT, 2020, p210). Moot pegou o código fonte aberto do 2chan, traduziu porcamente em um software da época (babelfish) e daí resultam os termos que permeiam o site como “anonymous”, tradução direta do japonês “nanashi” (sem nome). Nascia assim o 4chan.
Lowtax , que já estava de saco cheio, não se furtava de banir usuários que postassem hentai e outros conteúdos relacionados. Eventualmente ele bane definitivamente hentai do Something Alwful e essa base de usuários migra para o 4chan, onde entendem ser um espaço “mais livre”. E foi justamente essa “liberdade” que permitiu florescer as capacidades de mobilização do site. Banir hentai do Something Awful ainda traria um efeito borboleta imensurável na história da política mundial.
Anonnymous e vigilantismo digital
“Como um rio caudaloso que serpenteia inexoravelmente em direção ao oceano, a busca constante por estímulos, tanto do 2channel quanto do 4chan, levou seus usuários a um recurso natural igualmente vasto: a capacidade aparentemente infinita dos seres humanos para a indignação.” (ALT, 2020, p.217)

Esse novo clube do bolinha inaugurado pelo 4chan era novo, estimulante e, principalmente, DESREGRADO. A cada atualização da página novas discussões surgiam. E lá havia uma “LIBERDADE” que poucos espaços na internet garantiam. Assim criava-se uma identidade própria em torno do 4chan. Este ambiente de pura positividade irrestrita dava aos seus usuários a sensação de onipotência até então muito nova. A internet ainda não era onipresente como hoje; estes foram os primeiros ensaios do que se tornaria a mobilização digital. Não demorou muito para que os channers se organizassem em ações que impactavam o mundo real — o IRL.
Em janeiro de 2008 vazou na internet um vídeo de Tom Cruise falando entusiasmadamente sobre as benesses da Cientologia. O vídeo era voltado ao consumo interno dos membros da cientologia. O 4chan, que poderia ser entendido como o “hub” da cultura de internet, se divertiu horrores com o vídeo. Memes e piadas surgiam fazendo referência ao material. Quando a Igreja da Cientologia tentou tirar o vídeo da internet e acabar com a brincadeira, o 4chan entrou em cena: Quem é a Cientologia, ou quem quer que seja, para lhes dizer o que eles poderiam ou não zuar na internet?
Então os usuários do 4chan se uniram pelo nome de Anonymous — como seus usuários apareciam no site — e organizaram verdadeiras “gincanas” para trollar a igreja da Cientologia: eles passavam trotes, mandavam faxes com páginas inteiras pintadas de preto, pediam grandes quantidades de pizzas em nome da igreja, lançaram ataques de trafego falso e negação de serviço (DDoS) e outras “zueirinhas”.
Mas o auge dessa mobilização espontânea foi quando no dia 10 de fevereiro de 2008, quando sete mil usuários do 4chan apareceram em instalações da igreja da Cientologia ao redor do mundo vestindo o máscaras do Guy Fawkes (do filme V de Vingança, das Irmãs Watchowski), carregando cartazes com slogans anti-cientologia. Eles também apareciam com caixas de som tocando “Never Gonna Give You Up”, de Rick Astley e dispersavam sorrateiramente após uma hora (ALT, 2020, p.217).

No ano seguinte, os usuários do 4chan elegeram o criador do site, moot, como pessoa do ano da revista Times em uma votação aberta em seu site. Moot recebera mais votos que nomes como Barack Obama, Vladimir Putin e Oprah Winfrey. Não era possível dizer se havia um líder para mobilização. Tudo apontava para uma mobilização legitimamente orgânica. Não demorou muito até que o site chamasse atenção de figuras peculiares como Steve Bannon e Jeffrey Epstein.
“Enorme potencial de manipulação”
Anos se passam e o 4chan só cresce. Em 2011, moot fecha o subforum /new/, alegando ter se tornado um “reduto de nazistas”. Já houve alguma preocupação com a propagação de material extremo no site. Isso mudaria muito em breve.
Documentos liberados sobre o caso Jeffrey Epstein revelam que no dia 20 de outubro de 2011, Boris Nikolic, investidor de risco e antigo conselheiro de Bill Gates, lhe envia um perfil de Moot na wikipedia dizendo que “ele era um cara legal e que ele devia conhecê-lo”.

4 dias depois Boris pergunta a Epstein “o que você achou de moot?” Epstein diz que gostou muito dele.

No dia 23 de outubro de 2011 Moot lança o subforum /pol/, que se tornaria o maior incubador da extrema direita na internet. Era basicamente o mesmo subforum /new/ que foi deletado por ser “muito racista”.
4 dias depois do encontro de Poole com Epstein, Nikolic lhe envia um link com uma entrevista com moot dizendo “o potencial para manipulação é enorme”.


Alguns anos depois, o 4chan chamaria a atenção de Steve Bannon, principal estrategista da campanha de Donald Trump.
Aqui entramos no campo da especulação…
Em 2010 Christopher Poole, o moot, abre uma startup chamada Drawquest. Tratava-se de um app que misturava desenhos e mensagens anônimas e não anônimas onde os usuários poderiam remixar postagens alheias. A ideia era pegar o que deu certo no 4chan e deixar “mais palatável para os normies”. O 4chan era um site muito difícil de se monetizar. No entanto aplicativo não fez muito sucesso e ele não conseguiu monetizar a inciativa. Mas entre 2010 e 2011, moot buscou investidores para sua nova startup.
É neste período que ele conhece Jeffrey Epstein. Há alguma especulação quanto às motivações de moot para conhecer o suposto financista. Muito provavelmente a maior delas é financeira: Boris Nikolic — o intermediador do encontro — é próximo de Bill Gates, e Jeffrey Epstein era, supostamente, o maior articulador entre os bilionários estadunidenses.
Mas fato é que…
Alguns dias depois do encontro de Epstein com moot o subfórum /pol/ (politicamente incorreto) foi lançado. O /pol/ se tornou a maior incubadora da Alt-Right e deu as bases para o que se tornaria depois o gamergate, QAnon e de onde partia maior parte da agitação digital da campanha de Donald Trump.

Coincidentemente (ou não), o /pol/ foi lançado por volta de um mês depois do início do Occupy Wall street.

No dia 3 de outubro de 2011, Mark Epstein manda um email ao seu irmão, Jeffrey, dizendo que “parece que a revolução que você previu 30 anos atrás está prestes para começar”. Jeffrey responde “uh oh”.

Não é absurdo dizer supor que a criação do /pol/ fora a criação de um “freio de emergência” para o potencial revolucionário do Occupy Wall Street. É no mínimo interessante perceber que o maior articulador social da elite da elite estadunidense se mostre preocupado com um movimento carregado de retórica revolucionária. Era inaceitável que internet fosse usada para ameaçar o sistema financeiro novaiorquino sem nenhuma reação da elite. Era preciso frear a brincadeira dos ocupantes de Wall Street. Moot garantiu a existência deste freio lhes concedendo um pouco do “enorme potencial de manipulação” que Boris Nikolic havia identificado no 4chan.
O ambiente já estava garantido. Os sujeitos contrarrevolucionários já foram identificados. Agora era necessário alguém ativar este potencial. Aí que entra Steve Bannon.
STEVE BANNON E O GAMERGATE
Steve Bannon é o maior estrategista de campanha da chamada Alt-Right, a nova extrema-direita. Ele já tinha alguma experiência prévia com o público gamer que o fez enxergar o segmento como um ativo bastante valioso a ser explorado politicamente.
Em 2005 Bannon investiu garantiu o investimento de 60 milhões de dólares em uma empresa chamada “Internet Gaming Entertainment” (IGE). IGE era uma empresa de transações e comercio digital, como itens em MMOs como Warcraft. Eles contratavam jogadores para farmar ouro e vendiam em troca de dinheiro real. Era uma prática precursora do que viria a ser a passageira febre dos NFTs; eles contratavam jogadores da periferia do capital, mão de obra barata, para que jogadores ocidentais pudessem desfrutar de itens raros sem tanto esforço.
Durante seu tempo na IGE, Bannon acumulou um valioso conhecimento sobre homens introvertidos cronicamente online em comunidades isoladas. Depois disso, Bannon foi para o tabloide de direta Breitbart, principal veículo que amplificaria o chamado GAMERGATE. O Gamergate é um movimento de assédio coordenado a jornalistas mulheres que atuam na produção de conteúdo voltado a videogames.
Tudo começou a partir de uma postagem raivosa do programador de 24 anos Eron Gjoni sobre sua ex-namorada Zoë Quinn no dia 15 de agosto de 2014. No texto de mais de 9000 palavras ele afirma que Zoë só teve boas análises em seu jogo indie — a aventura em texto Depression Quest — porque teria dormido com um dos jornalistas do site Kotaku.
A carta de Gjoni deu conta de amarrar todo um sentimento latente na comunidade gamer: o ressentimento diante do espaço crescente de mulheres em um nicho até pouco tempo dominado exclusivamente por homens. Ele postou sua carta enfurecida no Something Awful, 4chan e Reddit. Ele foi banido do something awful, cuja moderação chamou o texto de “despejo informativo psicopata” (tradução livre) mas o estrago já estava feito.

Essa dor de corno fora o pontapé inicial da guerra cultural supostamente motivada pela “Ética no jornalismo de jogos”. Steve Bannon viu essa movimentação e direcionou o jovem Milo Yannopoulos, um jornalista do Breitbart News, “ativar este exército”. Yannopoulos se tornaria um proeminente influenciador da Alt-Right nos anos seguintes.

“Esses caras, esses homens brancos sem raízes tinham um poder monstruoso”.
Bannon sabia onde encontrar estes homens brancos desenraizados: no 4chan.
O 4chan se tornara o principal reduto de discussões a respeito do #GAMERGATE, especificamente no /pol/.
O movimento rapidamente se expandiu para outros alvos, sendo a crítica cultural Anita Sarkeesian um dos principais; Sarkeesian já era alvo de ataques por sua série Tropes vs. Women in Video Games, mas durante o Gamergate, ela enfrentou uma escalada de violência verbal e ameaças de atentados que a forçaram a cancelar palestras e sair de casa. No fim, o Gamergate funcionou como um laboratório tático para a Alt-Right, refinando métodos de linchamento virtual e descredibilização da mídia que seriam amplamente utilizados na política institucional anos depois.

Em 16 de setembro de 2014 moot bane a discussão sobre o gamergate no 4chan. Os usuários reclamaram dizendo que moot tinha se vendido e que o 4chan não era mais um espaço que priorizava “liberdade de expressão”. Isso leva a discussão ao 8chan.
O stress gerado pelo Gamergate leva moot a se afastar do 4chan em 2015. Em setembro do mesmo ano, Hiroyuki Nishimura, criador do 2chan original, assume o comando do 4chan.
Paralelamente, o subreddit /TheDonald/, apoiador de Donald Trump e incubador dos mais diversos discursos de ódio e teorias da conspiração, é fundado em 2015.
Nesse período estouram os videos de influenciadores como Charlie Kirk lacrando em cima de universitarios a respeito de assuntos “polêmicos”.
Esse novo ambiente online forma sua própria identidade e não demora muito para que circulem teorias e discursos a respeito da Redpill. A Redpill é um conceito roubado do filme Matrix — mais uma vez o trabalho das irmãs Watchowski sendo ressignificado pela extrema-direita — que mostraria uma suposta “realidade” em que todo o progressismo assume um verniz conspiratório e, portanto, passível de ser descredibilizado ou até mesmo eliminado. A Redpill nada mais é do que um mecanismo retórico para assimilação imediata de quaisquer discursos e formações ideológicas.

O sufixo “pilled” representa alguém que assumiu uma formação ideológica imediata. Blackpilled, redpilled, purplepilled, etc.
Até aqui a internet já havia se transformado radicalmente do que era nos primeiros anos de sua existência: não mais um lugar para compartilhar interesses comuns com outros nerds introvertidos, mas um lugar propício para radicalização e aceitação de ideias até então inaceitáveis. Só que agora essas ideias eras divertidas. Este foi o trunfo do chamado “movimento neorreacionário”.
NEORREACIONARISMO E A CULTURA DA TRANSGRESSÃO
O crescimento da retorica Redpill e do Gamergate coincide com a crescente influencia de Kurtis Yarvin, considerado o líder intelectual do movimento neorreacionário. A influencia de Yarvin guiou bilionários da indústria tecnológica como Peter Thiel à filosofia conhecida como “iluminismo negro”, interessada em estabelecer feudos digitais liderados por CEOs. Em julho de 2016 Peter Thiel afirma não acreditar mais que capitalismo e democracia são conceitos compatíveis.
Fun Fact: Steve Bannon e o atual Vice presidente estadunidense JD Vance o apontam como influencia chave. É o Olavo de carvalho deles.
Este movimento, o neo-reacionarismo ou iluminismo negro, prega um retorno a normas sociais tradicionais e formas de governo abertamente autoritárias.
Homens como Peter Thiel, Elon Musk e Epstein identificaram que a internet pode ser usada como veículo de propagação dessas ideias, preparando as pessoas para aceitação de pensamentos antes inaceitáveis. O que eles fazem é “expandir a janela de Overton”, a janela do que é socialmente aceito”, até que sua filosofia caiba no mainstream. Como eles fazem isso? Criando uma cultura de permissividade completa. Uma cultura onde a transgressão seja a norma, seja o louvável, e tudo que venha barrar essa transgressão, essa hiper positividade, seja vista como uma negatividade a ser eliminada. Assim, tudo que vá de encontro a doutrina neorreacionaria seja classificada como “woke”.
Todo este movimento culmina na eleição de Donald Trump em 2016. O influenciador Milo Yannoupoulos credita à eleição de Trump o que chamam de “meme magic”; a ideia de que se você postar demais, você acaba afetando o mundo real.
A “magia do meme” é viciar os sujeitos no gozo que aquele meme, que aquela fantasia traz, até que os mesmos transformem a realidade para concretizá-lo. É por este caminho que ideias até então marginalizadas se tornam aceitas na sociedade.
A cultura de transgressão que permitiu a normalização de piadas racistas, homofóbicas, travestidas de “politicamente incorreto” acabaram normalizando a mentalidade neorreacionária que permitiu à Alt Right Americana chegar ao poder.
OS NOVOS FRONTS DE GUERRA (HÍBRIDA)
Em 2017 Steve Bannon conhece Jeffrey Epstein. Durante os primeiros anos da primeiro mandato de Trump a extrema cresce sem freios nos Estados Unidos e no mundo.
Em 2019 três atiradores em massa publicaram seus manifestos no 8chan: a mesquita de christchurt na nova zelandia; a sinagoga de POE na california; e o atirador do Wal Mart em El paso. O 8chan é desativado do Cloudfare, seu servico de hospedagem. No Brasil, foi o ano do atentado à escola Escola Estadual Raul Brasil em Suzano, São Paulo.
Epstein é preso em julho de 2019 e “morre” um mês depois. Ele foi indiciado por tráfico sexual de dezenas de meninas menores de idade entre 2002 e 2005, na Flórida e em Nova York.
Mas até aqui o estrago já estava feito, tanto na cultura gamer quanto no público mais “tradicional”. O Reddit também fora um front na batalha pelos corações e mentes no ambiente digital.
Em 30 de junho de 2020 a conta supostamente atribuída a Ghislaine Maxwell — companheira e cúmplice dos crimes de Jeffrey Epstein — faz sua última postagem no Reddit. Em 2 de julho de 2020, ela é presa.
A conta “Maxwhellhill” foi a primeira conta do reddit a acumular 1 milhões de karma, a pontuação dos usuários do reddit. A conta fazia a moderação de subforuns proeminentes como /worldnews; /Technology; /Travel; /Health; /Environment; /BadCopNoDonut e /Europe.
Apenas no subforum “/worldnews”, a conta foi responsável por 30% das postagens. Worldnews é um dos agregadores de notícia mais visitados do mundo, garantindo a conta uma influência considerável. A conta postou todo dia por 14 anos e parou quando Ghislaine foi presa.
Aqui temos (supostamente) Ghislane de um lado moldando o que os usuários do Reddit têm acesso por 14 anos e, de outro, a influência de Epstein e Bannon na cultura gamer.
E em 2022 o fascismo tecnorregressivo contaria com mais um front proeminente: o Twitter. Elon Musk compra o site por 44bi USD e começa imediatamente a expandir a janela de Overton do site reabilitando a conta de supremacistas brancos antes banidos e a conta de Donald Trump, banida após a insurreição de 6 de Janeiro de 2021. Musk muda o algoritmo para impulsionar suas próprias postagens e postagens de contas que ele simpatiza, além de repostar memes e teorias da conspiração de extrema-direita. O Twitter se tornou mais um vetor de radicalização assim como o 4chan e 8chan.
Assim se deu a 4channerização do Twitter.
A 4CHANNERIZAÇÃO DO MUNDO
Mídias sociais em 2024 agora são basicamente câmaras de eco do fascismo tecnorregressivo, o Facebook, Instagram e Threads se tornam espaços tomados por lixo gerado por IA e “Iscas de engajamento”. O algoritmo do tiktok, agora comprado em partes pelos EUA, oferece conteúdo cada vez mais extremo para manter seus usuários online.
O que fica claro é que é possível usar lugares semi-radicalizados como 4chan e reddit como plataforma para posterior radicalização e agitação direcionada. O que o GAMERGATE se tornou foi num laboratório de destruição de reputação e descredibilização da mídia tradicional. Táticas essas que são reproduzidas pela extrema-direita até hoje.
Então, para facilitar a aceitação à ideologia neorreacionária, foi preciso transformar o mundo em um grande chan. Steve Bannon, Jeffrey Epstein — e moot — foram muito bem sucedidos nisso.
O QUE PODEMOS CONCLUIR?
A internet não é naturalmente uma “incubadora de tudo que há de pior”. A guerra cultural da última década foi minuciosamente construída.
Assim a normalização da misoginia, pedofilia e outras incivilidades têm se tornado cotidianas na metade dos anos 20. Isso explica a explosão de casos de feminicídio que o Brasil tem visto nos últimos anos.
Através das redes sociais — que são instrumentos estratégicos para a geopolítica estadunidense — foi gerado um consenso sintético que possibilitou a aceitação do inaceitável.
E como isso foi possível? Através de engenharia libidinal. Através do oferecimento de um gozo cada vez mais desregrado, que vicia estes sujeitos deslocados e sem raízes tornando-lhes instrumentos da reprodução da ideologia neofacista, a ideologia de um fascismo que usa de técnica, retórica e midiática, para regredir seus sujeitos. Assim, qualquer freio a esta “positividade desenfreada”, torna-se passivo de eliminação e desqualificação, afinal, é “woke” — a “arte degenerada” do século XXI.
OBSERVAÇÃO: Este conteúdo é baseado na seção “A mente conectiva e a 4channerização do mundo”, disponível no capítulo 5 do meu livro “Infiltrado no Chan”.
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REFERÊNCIAS
ALT, Matt. Pure invention: how Japan’s pop culture conquered the world. New York: Crown, 2020.
MEIRA, Luís Antônio Alves. Infiltrado no Chan: fascismo tecnorregressivo da Red Pill à infantilização da política. São Paulo: Dialética, 2025. 332 p. ISBN 9786527077213.


