Epstein, Bannon e a 4channerização do mundo

O caso Epstein revela o uso de memes e espaços digitais para construir uma guerra cultural que expande a "janela de Overton", normalizando ideias antes marginalizadas, como a supremacia branca e masculina. O mundo, assim, tornou-se um grande Chan.

Mas o que é um CHAN?

Um chan é um modelo de fórum anônimo onde os usuários devem criar “fios” de postagens a partir de uma imagem; são imageboards. E a característica chave de um chan é sua efemeridade: os fios de discussão que não recebem tanto engajamento desaparecem e são substituídos por novos fios. O que acontece num chan, fica num chan — pelo menos, essa é a ideia.

O primeiro Chan foi criado no dia 30 de maio de 1999 (ALT, 2020, p.208). Em um apartamento da universidade de Conway, em Arkansas, o jovem Hiroyuki Nishimura lançou o site 2channel para discutir sobre animes e mangás. De lá para cá o mundo nunca mais foi o mesmo.

Arte da home do 2chan.

Sendo hospedado nos Estados Unidos, o site ficava livre das leis de censura mais rígidas do Japão. 2channel era um “segundo canal” para os usuários de um fórum popular mas instável chamado “Amezou”. O nome também é uma referência ao canal “morto” (canal 2) usado para conectar videogames antigos antes dos cabos VGA e HDMI — quem teve um NES, SNES ou Nintendo 64 sabe. O site foi, por um tempo, o mais acessado no país.

Origem dos chans

Ao longo dos anos 90 vídeo games, animes e outros produtos culturais japoneses chegaram com força ao ocidente. As sementes da cultura otaku se enraizaram na década seguinte e criaram uma forte demanda por um contato mais direto com as obras em questão do que aquele que era possível através de uma intermediação muitas vezes censuradas das obras dubladas e localizadas para o público americano. Os novos otakus queriam material direto da fonte (eles queriam ver anime legendado). Mas eles não conseguiam visitar o 2channel sem um conhecimento mínimo de japonês.

Paralelamente, ainda em 1999, Richard Kianka, conhecido como Lowtax, lança o site humorístico “Something Awful” (Algo Horrivel). Muitos memes e referencias da chamada cultura da internet têm origem no site.

No dia 30 de agosto de 2001, Hiroyuki lança um site backup do 2channel, o Futaba, ou 2chan. Era um backup. Mas ele deixou o código fonte aberto.

Equanto isso o Something Awful cresce, assim como o interesse em animes no início dos anos 2000. Lowtax, dono do Something Awful, não era particularmente fã de animes e não via com bons olhos a enxurrada de hentai que os usuários postavam. Em vez de apagar ou banir o conteúdo no site, ele criou outro forum: O ADTRW. ADTRW é o acrônimo para “ANIME DEATH TENTACLE RAPE WHOREHOUSE” (que eu vou me abster de traduzir). O DNA da cultura edgy (da transgressão pela transgressão) é visível desde os primeiros dias dos fóruns digitais.

Esta era a forma de Lowtax dizer: “Ei seu bando de estranhão, vocês querem ficar postando hentai? Então tá aqui o espaço de vocês!” (com um nome apropriado).

Richard Kianka, o "Lowtax", em 2002.
Richard Kianka, o “Lowtax”, em 2002.

Lowtax escolheu este nome bizarro para designar a partição otaku do Something Awful pelo seu desdém à mídia em questão, mas ela acaba resumindo o espírito da cultura que se criava; o culto à transgressão; onde o grotesco é celebrado para afastar os não participantes de determinada cultura de seu espaço — a cultura da transgressão produz estranheza para afastar os “normies” de seu ambiente digital e garantir a manutenção do fluxo de gozo do nicho específico. Ela tanto afasta (o externo) quanto aproxima (o interno).

O ADTRW e o 2Chan (japonês) compartilhavam o mesmo público, consequentemente, o mesmo tipo de socialização e ideologia: a ideologia que permitisse a socialização a partir daquele ambiente, daquele espaço distanciado do mainstream, do “estranho”. Isso gerou, na cultura digital, uma permissividade com fantasias de abuso e outras formas “não ortodoxas de sexualidade”, mesmo que inicialmente postadas no site pelo valor de choque, que acabou atraindo usuários que se sentiam à vontade para expressar tais fantasias. Quem diria? Se criavam assim espaços propícios para a socialização a partir de um gozo desregrado (onde “tudo pode”).

Christophe Poole, criador do 4Chan. Conhecido como moot.
Christophe Poole, criador do 4Chan. Conhecido como moot.

Um dos usuários mais ativos do ADTRW era o jovem Christopher Poole, conhecido como moot. No dia 29 de setembro de 2003, moot registra o 4chan.net. A escolha do nome era simples: ele queria fazer um novo 2chan, então tentou registrar 3chan, mas o domínio já estava ocupado. Naturalmente, a próxima opção seria 4chan (ALT, 2020, p210). Moot pegou o código fonte aberto do 2chan, traduziu porcamente em um software da época (babelfish) e daí resultam os termos que permeiam o site como“anonymous”, tradução direta do japonês “nanashi” (sem nome). Nascia assim o 4chan.

Lowtax , que já estava de saco cheio, não se furtava de banir usuários que postassem hentai e outros conteúdos relacionados. Eventualmente ele bane definitivamente hentai do Something Alwful e essa base de usuários migra para o 4chan, onde entendem ser um espaço “mais livre”. E foi justamente essa “liberdade” que permitiu florescer as capacidades de mobilização do site. Banir hentai do Something Awful ainda traria um efeito borboleta imensurável na história da política mundial.

Anonnymous e vigilantismo digital

“Como um rio caudaloso que serpenteia inexoravelmente em direção ao oceano, a busca constante por estímulos, tanto do 2channel quanto do 4chan, levou seus usuários a um recurso natural igualmente vasto: a capacidade aparentemente infinita dos seres humanos para a indignação.” (ALT, 2020, p.217)

Página inicial do 4chan.

Esse novo clube do bolinha inaugurado pelo 4chan era novo, estimulante e, principalmente, DESREGRADO. A cada atualização da página novas discussões surgiam. E lá havia uma “LIBERDADE” que poucos espaços na internet garantiam. Assim criava-se uma identidade própria em torno do 4chan. Este ambiente de pura positividade irrestrita dava aos seus usuários a sensação de onipotência nas relações sociais até então muito nova. O instinto torna-se o superego. A internet ainda não era onipresente como hoje; estes foram os primeiros ensaios do que se tornaria a mobilização no ambiente digital. Não demorou muito para que os channers se organizassem em ações que impactavam o mundo real — o IRL (In Real Life).

Em janeiro de 2008 vazou na internet um vídeo de Tom Cruise falando entusiasmadamente sobre as benesses da Igreja Cientologia. O vídeo era voltado ao consumo interno de seus membros. O 4chan, que poderia ser entendido como o “hub” da cultura de internet, se divertiu horrores com o vídeo. Memes e piadas surgiam fazendo referência ao material. Quando a instituição tentou tirar o vídeo da internet e acabar com a brincadeira, o 4chan entrou em cena: Quem é a Cientologia, ou quem quer que seja, para lhes dizer o que eles poderiam ou não zuar na internet?

Video em questão.

Então os usuários do 4chan se uniram pelo nome de Anonymous — como seus usuários apareciam no site — e organizaram verdadeiras “gincanas” para trollar a igreja da Cientologia: eles passavam trotes, mandavam faxes com páginas inteiras pintadas de preto, pediam grandes quantidades de pizzas em nome da igreja, lançaram ataques de trafego falso e negação de serviço (DDoS) e outras “zueirinhas”.

Mas o auge dessa mobilização espontânea foi quando no dia 10 de fevereiro de 2008, quando sete mil usuários do 4chan apareceram em instalações da igreja da Cientologia ao redor do mundo vestindo o máscaras do Guy Fawkes (do filme V de Vingança, das Irmãs Watchowski), carregando cartazes com slogans anti-cientologia. Eles também apareciam com caixas de som tocando “Never Gonna Give You Up”, de Rick Astley e dispersavam sorrateiramente após uma hora (ALT, 2020, p.217).

Se você lembra de ver anúncios incríveis de jogos absurdos demais para serem verdade e já clicou em um deles apenas para ser recebido com uma “Rick Rollada“, talvez seja hora de marcar um exame de rotina.

Operação “Chanology”

No ano seguinte, os usuários do 4chan elegeram o criador do site, moot, como pessoa do ano da revista Times em uma votação aberta em seu site. Moot recebera mais votos que nomes como Barack Obama, Vladimir Putin e Oprah Winfrey. Não era possível dizer se havia um líder para mobilização. Tudo apontava para uma mobilização legitimamente orgânica. Não demorou muito até que o site chamasse atenção de figuras peculiares como Steve Bannon e Jeffrey Epstein.

Enorme potencial de manipulação”

Anos se passam e o 4chan só cresce. Em 2011, moot fecha o subforum /new/, alegando ter se tornado um “reduto de nazistas”. Ao que parece, já existiu alguma preocupação com a propagação de material extremo no site. Mas isso mudaria muito em breve.

Documentos liberados sobre o caso Jeffrey Epstein revelam que no dia 20 de outubro de 2011, Boris Nikolic, investidor de risco e antigo conselheiro de Bill Gates, lhe envia um perfil de Moot na wikipedia dizendo que “ele era um cara legal e que ele devia conhecê-lo”.

Email de Boris Nikolic a Jeffrey Epstein recomendando o encontro dos dois.

4 dias depois Boris pergunta a Epstein “o que você achou de moot?” e Epstein diz que gostou muito dele.

Resposta de Epstein a Nikolic.

No dia 23 de outubro de 2011 moot lança o subforum /pol/, que se tornaria o maior incubador da extrema direita na internet. Era basicamente o mesmo subforum /new/ que foi deletado por ser “muito racista”.

4 dias depois do encontro de Poole com Epstein, Nikolic lhe envia um link com uma entrevista com moot dizendo “o potencial para manipulação é enorme”.

Nikolic demonstrando interesse no potencial de manipulação do 4chan.
Matéria enviada por Boris Nikolic a Jefrey Epstein.

Alguns anos depois, o 4chan chamaria a atenção de Steve Bannon, principal estrategista da campanha de Donald Trump.

E aqui entramos no campo da especulação…

Em 2010 Christopher Poole, o moot, abre uma startup chamada Drawquest. Tratava-se de um app que misturava desenhos e mensagens anônimas e não anônimas onde os usuários poderiam remixar postagens alheias. A ideia era pegar o que deu certo no 4chan e deixar “mais palatável para os normies”. O 4chan era um site muito difícil de se monetizar. No entanto aplicativo não fez muito sucesso e ele não conseguiu monetizar a inciativa. Mas entre 2010 e 2011, moot buscou investidores para sua nova startup.

É neste período que ele conhece Jeffrey Epstein. Há alguma especulação quanto às motivações de moot para conhecer o suposto financista. Muito provavelmente a maior delas é financeira: Boris Nikolic — o intermediador do encontro — é próximo de Bill Gates, e Jeffrey Epstein era, supostamente, o maior articulador entre os bilionários estadunidenses.

Mas fato é que…

Alguns dias depois do encontro de Epstein com moot o subfórum /pol/ (politicamente incorreto) foi lançado. O /pol/ se tornou a maior incubadora da Alt-Right e deu as bases para o que se tornaria depois o gamergate, QAnon e de onde partia maior parte da agitação digital da campanha de Donald Trump.

/pol/ – no 4chan.

Coincidentemente (ou não), o /pol/ foi lançado por volta de um mês depois do início do Occupy Wall street.

Occupy Wall Street.

No dia 3 de outubro de 2011, Mark Epstein manda um email ao seu irmão, Jeffrey, dizendo que “parece que a revolução que você previu 30 anos atrás está prestes para começar”. Jeffrey responde “uh oh”.

Email que Mark Epstein manda ao seu irmão acompanhado de um artigo sobre o Occupy Wall Street.

Não é absurdo dizer supor que a criação do /pol/ fora a criação de um “freio de emergência” para o potencial revolucionário do Occupy Wall Street. É no mínimo interessante perceber que o maior articulador social da elite da elite estadunidense se mostre preocupado com um movimento carregado de retórica revolucionária. Era inaceitável que a internet fosse usada para ameaçar o sistema financeiro novaiorquino sem nenhuma reação da elite. Era preciso frear a brincadeira dos ocupantes de Wall Street. Moot garantiu a existência deste freio lhes concedendo um pouco do “enorme potencial de manipulação” que Boris Nikolic havia identificado no 4chan: ele garantiu um ambiente de geração de indignação que pudesse ser facilmente orientada.

O ambiente já estava garantido. Os sujeitos contrarrevolucionários já foram identificados. Agora era necessário alguém ativar este potencial. Aí que entra Steve Bannon.

Steve Bannon e o Gamergate

Steve Bannon é o maior estrategista político associado à chamada Alt-Right, a nova extrema-direita. Ele já tinha alguma experiência prévia com o público gamer que o fez enxergar o segmento como um ativo bastante valioso a ser explorado politicamente.

Steve Bannon fazendo um gesto “peculiar”.

Em 2005 Bannon investiu garantiu o investimento de 60 milhões de dólares em uma empresa chamada “Internet Gaming Entertainment” (IGE). IGE era uma empresa de transações e comercio digital, como itens em MMOs como Warcraft. Eles contratavam jogadores para farmar ouro e vendiam em troca de dinheiro real. Era uma prática precursora do que viria a ser a passageira febre dos NFTs; eles contratavam jogadores da periferia do capital — países do sudeste asiático e América latina, mão de obra barata, para que jogadores ocidentais pudessem desfrutar de itens raros sem tanto esforço.

Durante seu tempo na IGE, Bannon acumulou um valioso conhecimento sobre homens introvertidos cronicamente online em comunidades isoladas. Depois disso, Bannon foi para o tabloide de direta Breitbart, principal veículo que amplificaria o chamado GAMERGATE. O Gamergate é um movimento de assédio coordenado a jornalistas mulheres que atuam na produção de conteúdo voltado a videogames.

Tudo começou a partir de uma postagem raivosa do programador de 24 anos Eron Gjoni sobre sua ex-namorada Zoë Quinn no dia 15 de agosto de 2014. No texto de mais de 9000 palavras ele afirma que Zoë só teve boas análises em seu jogo indie — a aventura em texto Depression Quest — porque teria dormido com um dos jornalistas do site Kotaku.

A carta de Gjoni deu conta de amarrar todo um sentimento latente na comunidade gamer:  o ressentimento diante do espaço crescente de mulheres em um nicho até pouco tempo dominado exclusivamente por homens. Ele foi banido do Something Awful, cuja moderação chamou o texto de “despejo informativo psicopata” (tradução livre) mas o estrago já estava feito. Ele também tinha postado sua carta enfurecida no Something Awful, 4chan e Reddit.

Mensagem de banimento de Eron Gjoni

Essa dor de corno fora o pontapé inicial da guerra cultural supostamente motivada pela “Ética no jornalismo de jogos”. Steve Bannon viu essa movimentação e direcionou o jovem Milo Yannopoulos, jornalista do Breitbart News, “ativar este exército”. Yannopoulos se tornaria um proeminente influenciador da Alt-Right nos anos seguintes.

Milo Yannopulosfazendo gesto supremacista branco.

“Esses caras, esses homens brancos sem raízes tinham um poder monstruoso”. (STEVE BANNON)

Bannon sabia onde encontrar estes homens brancos desenraizados: no 4chan.

O 4chan se tornara o principal reduto de discussões a respeito do #GAMERGATE, especificamente no /pol/.

O movimento rapidamente se expandiu para outros alvos, sendo a crítica cultural Anita Sarkeesian um dos principais. Sarkeesian já era alvo de ataques por sua série Tropes vs. Women in Video Games, mas durante o Gamergate, ela enfrentou uma escalada de violência verbal e ameaças de atentados que a forçaram a cancelar palestras e sair de casa. Sarkeesian se tornava um interrupção do gozo desregrado destes gamers que socialização em espaços como o 4chan. Assim ela — e as feministas como um todo, tornam-se negatividades a serem eliminadas para a manutenção de uma socialibidade baseada na pura posividade). No fim, o Gamergate funcionou como um laboratório tático para a Alt-Right, refinando métodos de linchamento virtual e descredibilização da mídia que seriam amplamente utilizados na política institucional anos depois.

Anita Sarkeesian e Zoë Quinn

Em 16 de setembro de 2014 moot bane a discussão sobre o gamergate no 4chan. Os usuários reclamaram dizendo que ele tinha se vendido e que o 4chan não era mais um espaço que priorizava a “liberdade de expressão”. Isso leva a discussão ao 8chan.

Em 2015 moot se afasta do fórum. Em setembro do mesmo ano, Hiroyuki Nishimura, criador do 2chan original, assume o comando do 4chan.

Paralelamente, o subreddit /TheDonald/, apoiador de Donald Trump e incubador dos mais diversos discursos de ódio e teorias da conspiração, é fundado em 2015.

Nesse período estouram os videos de influenciadores como Charlie Kirk lacrando/mitando em cima de universitários a respeito de assuntos “polêmicos”. Este conteúdo encontrou um terreno fértil para seu compartilhamento e engajamento no Reddit e no 4chan. Uma vez que se associa significados negativos em determinado grupo (os normies), a positividade vem das vitórias simbólicas que os videos retratavam (ou emulavam). Assim nasce a cultura dos “debates” que não levam a lugar nenhum e têm a única e exclusiva função de gerar cortes para gerar o gozo de seu determinado grupo.

Quantas vezes você viu um “debate” na internet onde os dois lados se juntam em prol de engrandecer sua visão de mundo a partir do olhar do outro e formam uma síntese? Isto que, teoricamente, seria um debate. Mas não seria um conteúdo muito engajante, não daria like porque pressupõe o desmonte da prória positividade; pressupõe a ideia de aceitação de um superego que freie a pura positividade do ambiente digital. E é assim que cresce a distância entre os grupos sociais. No jargão militar, o termo “cismogênese” dá nome a esta criação de separação.

Esse novo ambiente online que se forma passa a criar suas próprias identidades e não demora muito para que circulem teorias e discursos a respeito da chamada Redpill. A Redpill é um conceito roubado do filme Matrix — mais uma vez o trabalho das irmãs Watchowski sendo ressignificado pela extrema-direita — que mostraria uma suposta “realidade” em que todo o progressismo assume um verniz conspiratório e, portanto, passível de ser descredibilizado ou até mesmo eliminado. A Redpill nada mais é do que um mecanismo retórico para assimilação imediata de quaisquer discursos e formações ideológicas, frequentemente reacionárias.

É uma forma rápida e fácil de assumir e dar significado a uma realidade cujos sujeitos fazem questão de não entender. Se as mulheres estão tendo mais voz e mais participação no mercado de video games, em vez de se aceitar a participação de sujeitos até então marginalizados naquele espaço, se cria uma narrativa que jsutifique a ameaça de sua presença nestes espaços — tanto no mercado de games quanto em outros espaços da sociedade. O sufixo “pilled” representa alguém que assumiu uma formação ideológica imediata. Blackpilled, redpilled, purplepilled, etc.

Falo mais disso no capítulo 4 do meu livro, na seção: A Fantasia Red Pill (p.163).

O “roubo” do significante da Redpil – de um mecanismo de roteiro que simboliza uma descoberta platônica de um mundo além das superestruturas conhecidas para um símbolo de normalização da misoginia – é uma das características mais marcantes da formação de grupos online. Esta disputa entre sentidos não se limita à extrema-direita, mas no caso da Alt-Right, o deslocamento de sentidos é frequentemente acompanhado de um “alto valor de choque”. É o caso do uso irônico do imaginário nazista para sinalizar o culto à transgressão, típicamente associado à cultura memética do 4chan.

Apoiadores de Trump em Nova York em 2017 com uma bandeira do “Kekistão.”

Embora o uso irônico da iconografia nazista possa parecer desconcertante, a lógica empregada é que, como memes, até mesmo os símbolos mais tabus podem ser desconectados de seu significado histórico fixo e funcionar como significantes flutuantes para aqueles que entendem as regras dos memes. (TUTERS, p.42)

Até aqui a internet já havia se transformado radicalmente do que era nos primeiros anos de sua existência: não mais um lugar para compartilhar interesses comuns com outros nerds introvertidos, mas um lugar propício para radicalização e aceitação de ideias até então inaceitáveis. Só que agora essas ideias eras divertidas. Este foi o trunfo do chamado “movimento neorreacionário”.

A ideia que se propaga é a de que: Agora está tudo bem gostar das ideias mais abjetas, desde que elas sejam engraçado, sejam memetizáveis. Pois este é o formato pelo qual a informação flui na internet.

Neorreacionarismo e a cultura da transgressão

O crescimento da retorica Redpill e do Gamergate acompanha a crescente influencia de Kurtis Yarvin, considerado o líder intelectual do movimento neorreacionário. A influencia de Yarvin guiou bilionários da indústria tecnológica como Peter Thiel à filosofia conhecida como “iluminismo negro”, interessada em estabelecer feudos digitais liderados por CEOs. Em julho de 2016 Peter Thiel afirma não acreditar mais que capitalismo e democracia são conceitos incompatíveis.

Fun Fact: Steve Bannon e o atual Vice presidente estadunidense JD Vance apontam Yarvin como sua influencia chave. É o Olavo de carvalho deles.

O neo-reacionarismo, ou iluminismo negro, prega um retorno a normas sociais tradicionais e formas de governo abertamente autoritárias. Por isso é de se preocupar quando o MLB traz — muito orgulhosamente — Yarvin para palestrar no Brasil.

Vereadora Amanda Vettorazzo recebendo o maior ideólogo da extrema-direita transnacional.

O MBL, ironicamente chamado “Movimento Brasil LIVRE”, esconde sua patente vertente autoritária através de um verniz de jovialidade, memes e humor típico de chan: um humor que busca incomodar, transgredir, pois é a través da cultura da transgressão que se expande a janela do aceitável. E se alguém se incomodar, eles têm a “negação plausível” como arma em seu arsenal retórico. A negação plausível permite negar conhecimento, participação ou um papel ativo na transmissão de uma mensagem “tendenciosa”. É usar a “ironia” para não assumir que se diz o que diz, se pensa o que pensa e se faz o que faz. Não à toa, o grupo tem uma alta tolerância a ideologias nazistas e racistas, fazendo até grupos com o nome “Cabaré de fascistas”, como mostrou uma reportagem do Intercept. Mas é tudo piada, claro.

Kurtis Yarvin sendo entrevistado pelo MBL.

O grupo é a maior vertente brasileira do que chamo de Fascismo Tecnorregressivo; a categoria de fascismo que se vale de técnicas retóricas e midiáticas para regredir seus sujeitos e transformar a política em uma grande gincana, com memezinhos e piadocas. É a infantilização da política para facilitar a mobilização de um grupo ressentido e, consequentemente, reacionário. E não é uma tática ineficaz, muito pelo contrário. Esta é a estrutura de mobilização que nasceu de forma orgânica no 4chan quando o “Annonymous” organizou os primeiros protestos contra a cientologia e à favor de moot na votação da Time. Tudo em nome da “zuera”. Este é o afeto que, afinal, amarra a mobilização de “homens brancos sem raízes” e garante o “enorme potencial de manipulação” que Boris Nikolic identificou no site e comunicou a Jeffrey Epstein.

“Zuera” é o afeto principal que move o fascismo tecnorregressivo.

Homens como Peter Thiel, Elon Musk e Epstein identificaram que a internet pode ser usada como veículo de propagação dessas ideias, preparando as pessoas para aceitação de pensamentos antes inaceitáveis. O que eles fazem é “expandir a janela de Overton”, a janela do que é socialmente aceito”, até que sua filosofia caiba no mainstream. Como eles fazem isso? Criando uma cultura de permissividade completa — como você já sabe. Uma cultura onde a transgressão seja a norma, seja o louvável, e tudo que venha barrar essa transgressão, essa hiper positividade, seja vista como uma negatividade a ser eliminada. Assim, tudo que vá de encontro a doutrina neorreacionaria seja classificada como “woke”. O próximo passo é criar uma enxurrada de conteúdo que cole significados negativos à palavra. E na internet, na lei algorítmica, onde o que deve fluir é a pura positividade, o “woke” torna-se algo a ser eliminado.

“Meme magic” e guerra híbrida

Após a eleição de Donald Trump 2016, o influenciador Milo Yannoupoulos creditou sua vitória ao que chamou de “meme magic”; a ideia de que se você postar demais, você acabará afetando o mundo real.

A “magia do meme” é viciar os sujeitos na fantasia o que o meme traz, até a realidade se torne uma negatividade e os mesmos a transformem de forma que suas fantasias sejam possíveis, superando esta “negatividade”. É por este caminho que ideias até então marginalizadas se tornam aceitas e, consequentemente, assimiladas na sociedade. A mesma cultura de transgressão que permitiu a normalização de piadas racistas, homofóbicas, travestidas de “politicamente incorreto” acabou normalizando a mentalidade neorreacionária que permitiu a ascensão da Alt-Right Americana. Assim foi tratada a eleição de Trump; o candidato que foi “memeficado” até a casa branca.

A magia do meme é também o meio pelo qual uma força externa pode influenciar um determinado grupo dentro de um país a agir de acordo a interesses externos, uma vez que o grupo assuma que o seu interesse próprio se torna o mesmo de um agente externo. A expectativa criada em torno da realização de uma fantasia comum repetidamente difundida acaba se tornando o motor para a realização deste meme. Esta é a lógica da chamada guerra memética, uma modalidade dentro do escopo maior de guerra híbrida.

De acordo com a perspectiva de Piero Leirner (2020) em Brasil no espectro de uma guerra híbrida, a guerra híbrida não é definida por um conflito armado tradicional, mas por uma estratégia indireta de “estrangulamento” e desestabilização interna que opera de forma invisível e constante. Trata-se de uma modalidade de conflito não linear que utiliza a combinação de operações psicológicas, pressões econômicas, ataques cibernéticos e, fundamentalmente, a manipulação de informações (como o uso estratégico de redes sociais algoritmos e memes) para fragmentar o tecido social de uma nação. Para Leirner, o objetivo central não é a destruição física do inimigo, mas a corrosão das instituições e a criação de uma dissonância cognitiva na população, transformando o próprio ambiente democrático em um campo de batalha onde as fronteiras entre paz e guerra, verdade e mentira, tornam-se deliberadamente indistinguíveis.

A guerrilha memética é apenas uma modalidade de combate dentro do espectro da guerra híbrida.

Isso ocorre porque o meme — a menor unidade de cultura; um compartilhamento de sentido — é mais facilmente compartilhável quando ele gera algum prazer, libera endorfina, enfim, produz algum gozo. Neste sentido, o controle do fluxo de memes garante o controle da narrativa hegemônica e, consequentemente, a hegemonia na guerra híbrida.

Bannon e Epstein.

É com esta estratégia em mente que em 2017 Steve Bannon e Jeffrey Epstein se encontram. Neste período dos primeiros anos do primeiro mandato de Trump, a extrema direita cresce no mundo todo.

O Reddit também fora um front na batalha pelos corações e mentes no ambiente digital.

Após a liberação de parte dos Epstein Files, descobriu-se a relação de Ghislaine Maxwell — companheira e cúmplice dos crimes de Jeffrey Epstein — com a engenharia social idealizada por Epstein e Bannon. No dia 30 de junho de 2020 a conta supostamente atribuída a ela faz sua última postagem no Reddit. Em 2 de julho de 2020, ela é presa.

A conta “Maxwhellhill” fora a primeira do reddit a acumular 1 milhões de karma, a pontuação dos usuários do site. Ela fazia a moderação de subforuns proeminentes como /worldnews; /Technology; /Travel; /Health; /Environment; /BadCopNoDonut e /Europe.

Apenas no subforum “/worldnews”, a conta foi responsável por 30% das postagens. /Worldnews é um dos agregadores de notícia mais visitados do mundo, garantindo a conta uma influência considerável. A conta postou todo dia por 14 anos e parou exatamente quando Ghislaine foi presa.

Aqui temos (supostamente) Ghislane de um lado moldando o que os usuários do Reddit têm acesso por 14 anos e, de outro, a influência de Epstein e Bannon na cultura gamer.

O fascismo tecnorregressivo tinha agora controle dos sujeitos (homens brancos sem raízes), do ambiente (Chans e Reddit) e dos símbolos de gozo (memes que fluiam nestes ambientes). Mas é claro que os memes não se limitam a piadinhas de “humor negro”. A eliminação de grupos outros era, frequentemente, a punchline dessas “piadas”. Não demorou muito para que a “magia dos memes” passasse das telas para a realidade.

Em 2019 três atiradores em massa publicaram seus manifestos no 8chan: a mesquita de christchurt na nova zelandia; a sinagoga de POE na california; e o atirador do Wal Mart em El paso. No Brasil, a materialização destes memes macabros não demorou a aparecer: no mesmo ano a escola Escola Estadual Raul Brasil em Suzano, São Paulo, sofreria um dos maiores episódios de tiroteios a escola já registrados no país.

E em 2022 os fascistas pós-modernos contariam com mais um front proeminente: o Twitter. Elon Musk compra o site por 44bi USD e começa imediatamente a reabilitar a conta de supremacistas brancos antes banidos e a conta de Donald Trump, banida após a insurreição de 6 de Janeiro de 2021. Musk muda o algoritmo para impulsionar suas próprias postagens e postagens de contas que ele simpatiza, além de repostar memes e teorias da conspiração de extrema-direita. Assim se expande a janela do aceitável, a janela de Overton. O antigo Twitter se torna mais um vetor de radicalização assim como o 4chan e 8chan.

Musk não esconde suas intenções em comprar o Twitter por 44bi.

Musk sabe que se controlar o fluxo de gozo do site, ele controla indiretamente a realidade material daqueles cujo gozo agora ele tem poder sobre. É A MAGIA DO MEME! Por isso ele desfez todos os esforços da antiga administração do site para banir discurso de ódio e abuso infantil. Tudo isso em nome, claro, da “LIBERDADE DE EXPRESSÃO”, a qual ele se diz ser um absolutista. Então o antigo Twitter se torna um ambiente quase que completamente desregulado assim como um chan. Assim se deu a 4channerização do Twitter.

A 4channerização do mundo

A partir de 2024 as redes sociais se tornam basicamente câmaras de eco do fascismo tecnorregressivo. O Facebook, Instagram e Threads se tornam espaços tomados por lixo gerado por IA e “Iscas de engajamento”. O algoritmo do Tiktok, agora comprado em partes pelos EUA, oferece conteúdo cada vez mais extremo para manter seus usuários online.

A partir do ensaio feito com o Gamergate, ficou claro é que é possível usar lugares semi-radicalizados como 4chan e reddit como plataforma para posterior radicalização e agitação direcionada. Este conhecimento, uma vez aplicado nas redes sociais tradicionais — mainstream, produz o ambiente de caos cognitivo e ruído informativo que movem a extrema-direita internacional. Pois é neste caos informativo que ideias antes relegadas aos cantos mais obscuros da internet se tornam aceitáveis. Assim o mundo se tornou um grande chan, onde conteúdos cada vez mais bizarros escorrem para a superfície e seus defensores acusam quem quer que se ofenda de “inimigos da liberdade de expressão”.

Steve Bannon, Jeffrey Epstein — e moot — foram muito bem sucedidos nisso. Mas hoje podemos ver que não chegamos até aqui sozinhos.

As últimas revelações dos Epstein Files mostram que internet não é naturalmente uma “incubadora de tudo que há de pior”. A guerra cultural da última década foi minuciosamente construída. Isso mostra que a cultura pode ser capturada e transformada para engendrar desejos convenientes para determinado grupo político. Assim a classe dominante estadunidense se esforçou para colonizar a internet e as consciências daqueles que trafegam por seus espaços. Para isso foi preciso criar uma cultura do gozo pela transgressão e aceitação do inaceitável.

Assim a normalização da misoginia, pedofilia e outras incivilidades têm se tornado cotidianas na metade dos anos 20. Isso explica a explosão de casos de feminicídio que o Brasil tem visto nos últimos anos. Através das redes sociais — que são instrumentos estratégicos para a geopolítica estadunidense — foi gerado um consenso sintético que possibilitou a aceitação do inaceitável.

E como isso foi possível? Através de engenharia libidinal. Através do oferecimento de um gozo cada vez mais desregrado, que vicia estes sujeitos deslocados e sem raízes tornando-lhes instrumentos da reprodução da ideologia neofacista, a ideologia de um fascismo que usa de técnica, retórica e midiática, para regredir seus sujeitos. Assim, qualquer freio a esta “positividade desenfreada”, torna-se passivo de eliminação e desqualificação, afinal, frear a pura positividade das redes é entendido como “woke” — a “arte degenerada” do século XXI.

OBSERVAÇÃO: Este conteúdo é baseado na seção “A mente conectiva e a 4channerização do mundo”, disponível no capítulo 5 do meu livro “Infiltrado no Chan”.

REFERÊNCIAS

ALT, Matt. Pure invention: how Japan’s pop culture conquered the world. New York: Crown, 2020.

MEIRA, Luís Antônio Alves. Infiltrado no Chan: fascismo tecnorregressivo da Red Pill à infantilização da política. São Paulo: Dialética, 2025. 332 p. ISBN 9786527077213.

LEIRNER, Piero C. O Brasil no espectro de uma guerra híbrida: militares, operações psicológicas e política comercial. 1. ed. São Paulo: Alameda, 2020.

TUTERS, Mark. LARPing & Liberal Tears: Irony, Belief, and Idiocy in the Deep Vernacular Web. In M. Fielitz & N. Thurston (eds.) Post-Digital Cultures of the Far Right. Bielefeld: transcript Verlag (37-48), 2019.


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Luís Meira

Mestre pelo programa de Pós Graduação Interdisciplinar em Linguagens, Mídia e Arte da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, com o trabalho "Infiltrado no Chan: Economia e Identidade do ódio", sob orientação do Prof. Dr. Carlos Alberto Zanotti, onde foi bolsista do CNPq. É graduado em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica de Pernambuco. Teve experiência como diretor de arte nas agências Shifty e 4com, em Recife. Possui conhecimento básico da língua alemã (Goethe Institut, A2), fluência na língua inglesa (Alpha Collegue of English-Dublin, B2+), atualmente estuda a língua japonesa (NCL-Recife, A2) e possui noções básicas da língua francesa (Aliança Francesa-Recife, A1.1).

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